(série Construtivista Tabaréu, foto Marta Braga, Rio de Janeiro, 1977)

por Meise Halabi
Nos anos 70, Waly Salomão [1943-2003] produziu uma série de propostas visuais em Nova York, Rio de Janeiro e Salvador que chamou de “Babilaques”. Seu autor pretendia mostrar o conjunto completo no circuito de arte, sob o título “Waly Salomão: Babilaques, Alguns Cristais Clivados”, mas não chegou a fazê-lo.

Os “Babilaques”, datados de 1975-77, são peças de expressão híbrida ou “polissêmica”, como descreve Waly. Os cadernos manuscritos eram abertos em uma certa página determinada pelo artista, e fotografados em diversos ambientes inusitados, também escolhidos por ele. O registro fotográfico dessa operação é um “Babilaque”.

Em 1979, Waly escreveu que não os chamaria de “poemas visuais”, pois a expressão era insuficiente para abarcar a interrelação de  linguagens dos “Babilaques” - texto, desenho, colagem, planos, textura, cor, luz, ângulo, corte, imagens impressas e objetos do cotidiano. É, segundo ele, a experiência de fusão da escrita com a plasticidade.

(séries Amalgâmicas, foto Marta Braga, Itapoã 1976 &  Santo Graalfico, foto Marta Braga, Rio 1976)

Quando Salomão batizou essas criações de  “Babilaques”, a palavra não estava dicionarizada. Mais de 20 anos depois, ele a usou na composição Remix século XXI, de 1999, com Adriana Calcanhoto: “[…] Babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé, beatnik, vietcong, bolchevique, technicolor, biquíni, pagode, axé, mambo, rádio, cibernética; […]”

Babilaque é uma corruptela de “badulaque”, esta dicionarizada, que significa grupo de pertences de uma pessoa, coisas soltas etc. No mundo policial, a gíria ganhava o sentido de “documentos”. E é com esse significado da gíria que Waly intitula sua série.


(série Trying to Grasp the Subway Grafitti’s Mood, foto Marta Braga. NY 1975)

O curador e artista plástico Luciano Figueiredo, um dos poucos a ser apresentado a essa produção na década de 70, compara a inovação criativa dos “Babilaques”, para a arte brasileira, aos calligrammes do francês Guillaume Apollinaire, aos relevos e poemas dos franceses Jean Arp e Picabia, à série Merz do alemão Kurt Schwitters e ao ideário do cinema verdade do russo Dziga Vertov, pela proximidade com tipologias e escrituras pouco ortodoxas.

Radicalmente distintos do culto de “caderno de artista” ou “bastidores” de processo de produção, os cadernos de Waly são peças autônomas e estruturais para a criação de cada “Babilaque”.

(série Mondrian Barato, foto Marta Braga, Itapoã 1976)

Distinguem-se também da tradição espacial da poesia concreta, e foram realizados no momento em que a arte internacional queria superar conflitos das vanguardas modernistas através da arte conceitual e seus desdobramentos da minimal art, performance art, body art, land art, earth works e outras inquietações artísticas.


(série Alterar ( Altduplicadernaro),foto duplicada por Hélio Oiticica, NY 1975)

O curador avalia:
- Uma operação “amalgâmica”, como gostava de definir Waly, “Babilaques” são uma mescla extremamente pessoal de signos, idiomas e linguagens, e efetivamente constituem enquanto exercício de imagem, um diálogo raro da poesia com a arte.

Profundo conhecedor dos postulados das vanguardas futuristas, construtivistas, dadaístas e surrealistas do século XX, Waly possuía, ao mesmo tempo, vivência íntima com as expressões representativas do caráter experimental da arte brasileira desde o início dos anos 60. É o repertório de arte e idéias que formam o eixo central dessa sua experiência.

-B-A-B-I-L-A-Q-U-E-S-

Waly Salomão e a obra de Marcel Duchamp - To be looked at (from the other side of the glass) with one eye, close to, for almost an hour; foto Marta Braga, Nova York, 1975

Os experimentos poéticos que intitulei BABILAQUES e que desenvolvo desde 1974, representam um marco fundamental dentro de minha produção.

BABILAQUES é uma palavra não dicionarizada, não tem o seu sentido definido pelo dicionário; carrega, portanto, possibilidades virtualmente infinitas. Contêm em si uma libertação do sentido literal stricto sensu enquanto dispara diversos sentidos embutidos no seu interior. Palavra polissêmica, de forte carga rítmica moderna, porém não modernosa, e claramente não está destinada a ser somente uma gíria provinciana, localista e efêmera de um gueto.

A própria palavra espelha a estrutura e organicidade desta experiência, ou seja, algo liberto das categorias artísticas e literárias fixas. A palavra e o texto possuem funções interseccionais e amalgâmicas quando justapostos aos elementos integrantes desta PERFORMANCE - POÉTICO - VISUAL. Entretanto evitaria designá-los simplesmente de poemas visuais já que esta designação é desatenta à somatória de linguagens, e assim obviamente resultaria em algo já conhecido,  estático e sem mobilidade. O caráter INTERRELACIONAL de textos, objetos, luzes, planos, texturas, imagens, cores, superfícies, não está dirigido a uma busca meramente pictórica. Com BABILAQUES surta outra realidade que é a de assumir por inteiro a visão de MULTILINGUAGEM. Não quero dizer que a partir de então, as palavras, os textos, só possam exis-tir quando relacionados a outros componentes que não os de suas próprias naturezas . Esta experiência torna a palavra ainda mais voltada para si própria, como se uma nova vitalidade se instaurasse a partir deste interrelacionamento, desta musicalidade poético/visual. A palavra aqui é o agente que hibridiza todo o campo sensorial da experiencia.

Os traba1hos realizados sem palavras são elementos visuais poeticamente imantados, evidenciando assim a versatilidade da descoberta, isto quer dizer, uma foto de um pedaço de fruta dentro de uma lata vazia, não pretende ser uma forma insólita de “natureza morta”, mas instaura um discurso, uma fala, um canto, uma música, cines imaginários. Este é o carater ESTRUTURAL da experiência: PLURALIDADE de significados.

A fotografia -  com seus elementos composicionais próprios: luz, cor, ângulo, corte-transforma e ficciona a PERFORMANCE POÉTICA.

Rio, março de 1979
Waly Salomão

WALY SALOMÃO: BABILAQUES - alguns cristais clivados

fotos da exposição realizada no espaço Oi Futuro, no Rio de Janeiro, entre 31 de agosto e 14 de outubro de 2007.  Curadoria de Luciano Figueiredo e coordenação geral de Marta Braga [ficha técnica completa da exposição].

As séries de “Babilaques” da exposição são:
Construtivista tabaréu [10 fotos]
As mandíbulas do tubarão imperialista versus sombra chinesa de capim de caboclo [5]
Alterar Caltdernaro|Altduplicadernaro [5]
Under the bare tree [5]
Koan [3]
Mondrian barato [2]
Figuras alpinas [2]
Stride [5]
Sol cru [4]
Amalgâmicas [5]
Mar [4]
Trying to grasp the subway graffitti’s mood [5]
Santo graálfico [5]
Brasilly [3]
Território randômia [1]
Winterlúdio [1]
Vertozigagens [5]
Logbook [5]
Torpedo suicida [4]
Olavo biócio [4]

Catálogo

Da exposição “Waly Salomão: Babilaques, Alguns Cristais Clivados” resultou um livro-catálogo com textos, escritos especialmente para esta exposição, de Luciano Figueiredo, Arnaldo Antunes, Arto Lindsay, Antonio Cícero e Ericson Pires, um poema de Armando Freitas Filho de 1984 dedicado aos “Babilaques” e fotos de “Babilaques”.

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