A poesia no poder - Heloisa Buarque de Hollanda

O poeta Waly Salomão é o novo secretário nacional do Livro e da Leitura, integrando a equipe do Ministério da Cultura que tomou posse cantando, sugerindo uma gestão promissora pautada pelo sonho, pela catimba e pela bandeira da Imaginação no Poder. Aqui ele fala de seus planos, sua relação com os livros e sua experiência como administrador.

entrevista publicada no dia 03 / 02 / 2003, no site Portal Literal

HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA: Que você é poeta polivalente, radical e premiado eu já sei. O que me interessa agora descobrir é o Waly político, executivo, que acaba de assumir a Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. Como esse personagem é muito novo para mim, vou com calma e pergunto primeiro: qual é a posição efetiva do livro e da leitura na sua vida?

WALY: Desde que me entendo por gente, o livro tem uma posição central, como se fosse um ícone dentro da casa. Ainda bem menino, me lembro de minha mãe discutindo com meus irmãos e irmãs mais velhos os dois volumes, daquela velha edição da editora Globo do Rio Grande do Sul, de “Guerra e paz” de Tolstoi. Eles discutiam a trama dos livros e seus personagens como se estivessem discutindo uma novela mexicana. Anna Karenina, por exemplo, era centro de conversa como se ela fosse uma personagem da Gloria Perez. Minha tia Etelvina, mulher de Tio Bento, lia sem parar. E eu, que já freqüentava a Biblioteca Pública de Jequié, onde morávamos, tirei para ela a edição do “D. Quixote” numa tradução bem rococó, feita por Antonio Feliciano de Castilho. E eu adorava aquele português bem rebuscado, com palavras muito mais difíceis do que no original espanhol e decorava trechos enormes do texto. Quando saiu “Gabriela Cravo e Canela”, lá em casa compramos logo três volumes porque todo mundo queria ler e não dava tempo. Minha irmã tinha os “Sertões” em capa dura e me obrigou a ler. Eu lia tudo o que me caía nas mãos e me fundia com aquelas páginas. E ao mesmo tempo aquelas páginas faziam com que eu transcendesse a coisa tacanha, acanhada, da vida de cidade do interior.

HBH: Você foi rato de biblioteca?

WALY: Claro! Quem tomava conta da biblioteca de Jequié era uma senhora chamada Nosa, que tinha um peitoril, uma platibanda assim bem felliniana. Ela não sabia nada de livros, tinha sido colocada ali por algum político. Quando entrava alguém procurando algum livro era eu quem sabia localizar onde estava o livro. Livro para mim nunca representou uma opressão, foi sempre uma oportunidade de libertação, de levantar vôo.

HBH: Pelo que eu sei você se formou em direito no calor dos anos 60. Nessa época de estudante, você era de esquerda? Você já conhecia os baianos que iam arrasar depois no Rio e em São Paulo?

WALY: Eu convivia com eles todos. O Gil eu conheci ainda no Colégio Central, no clássico. Uma colega de classe, Vânia Bastos, fez uma reunião na casa dela e apareceu um garoto gorducho, tocando violão e era Gilberto Gil. Isso era 61, 62. Éramos uma esquerda marxista-existencialista porque liamos Marx, Camus, Sartre e Merleau-Ponty, quer dizer, essa encruzilhada de paradoxos. Assisti aos primeiros shows deles, da Bethânia, do Tom Zé. Era uma época de grande fermentação na Bahia. Havia a Escola de Música, que era poderosa, com Koellreutter falando de dodecafonismo, o Walter Smetak falando de microtons. Junto com a faculdade de direito fui aluno da Escola de Teatro. Era também um espaço poderoso que, além de grandes nomes como Lina Bo Bardi e Martim Gonçalves, era bem equipada, tinha até ciclorama. Lá eram montadas peças de  Albee, Brecht, “Morte e vida severina”, teatro nô. Era a época de Yoná Magalhães, Helena Ignez, Sergio Cardoso, Gianni Ratto como coreógrafo.

HBH: E a militância mais diretamente política?

WALY: Participei do CPC baiano, com Geraldo Sarno, Capinan, Tom Zé. A gente levava as peças ou na Concha Acústica do teatro Castro Alves de Salvador ou nas favelas nascentes da cidade, como no Nordeste de Amaralina. Eu dava aula sobre “Feuerbach” de Marx, fazia palestras na faculdade de Medicina. Organizei também um centro de estudos chamado Antônio Gramsci (Ceac), bem antes de Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder traduzirem Gramsci na capital.

HBH: E depois de 1964?

WALY: Em 64, o corte foi o mais abrupto possível. Mas foi também nessa época que li “Tremor e temor”, de Kierkegaard, aquele genial protestante existencialista, que contava de repetidos ângulos a história de Abraão, incumbido por Deus de matar Isaac. Um livro de perspectiva cinética. Fiquei com isso na cabeça. Em volta, as pessoas andavam assombradas, amedrontadas, perdidas. Comecei a olhar outros caminhos. Na vida, se a via fica estreita, você tem sempre que descobrir como seguir. Isso para mim foi uma dolorosa, longa, sofrida vereda que eu busquei: a de ultrapassar a província.

HBH: E quando você conseguiu essa vereda?

WALY: Decidi vir para o Rio de Janeiro. Era a época em que Caetano já estava explodindo com “Alegria alegria” e a gente ficava conversando, lendo Clarice Lispector, discutindo Guimarães Rosa, Cinema Novo. Depois Dedé e Caetano me convidaram para ir para São Paulo, e acabei indo morar com eles na Rua São Luiz. Era o auge do Tropicalismo, e vivi lá até eles serem presos. Depois ficava entre Rio e São Paulo. Eu escrevia coisas que mostrava a todo mundo mas que ninguém lia. Teve até um texto que escrevi no Carandiru chamado “Apontamentos do Pavilhão 2″ que parece um hip hop avant la lettre. Ali representou um momento de deflagração da aventura de escrever. Foi ali que eu me concentrei e me liberei como escritor. Mostrei esse texto para diferentes pessoas mas ninguém dava retorno. Aí é que entra a figura do Hélio Oiticica que levou o texto a sério e que, por conta própria, sentou na prancheta e fez uma diagramação especialíssima para o texto que mais tarde foi apreendida pela polícia na casa de Rogério Duarte.

HBH: Bem, 40 anos depois de uma história bastante enviesada, com direito a prisões, repressão, milagres brasileiros e à onda neoliberal, essa mesma geração que você estava descrevendo toma o poder com a mesma morbeza romântica, a imaginação no poder, cantando o sonho, como se tivesse sido apenas casualmente interrompida por alguns minutos. Como você explica essa mágica?

WALY: No dia da posse, eu senti que era a primeira vez na República Federativa do Brasil que acontecia um tipo de posse tão alegre e diversificada. Ali estavam diferentes ângulos, picadas, perspectivas, possibilidades fecundas da cultura brasileira. Vi com emoção, entusiasmo e tesão, e é assim que estou assumindo esse cargo. Nunca acreditei em “the dream is over”. Sinto-me muito mais próximo da frase de Shakespeare: “Somos feitos do mesmo material de que são feitos os sonhos”. O sonho não pode acabar. Você tem que ter sempre tanques de reserva, possibilidades inusitadas, inexploradas, de se reabastecer de sonho.

HBH: O sonho é uma metodologia desejável para o bom administrador?

WALY: Eu sou de Virgem. Então, muitas vezes a cabeça está nas nuvens e os pés no chão. Quando fui nomeado diretor da Fundação Gregório de Matos de Salvador, trabalhei pesado. Na minha gestão eu me pautei antes de tudo por um modo de pensar desconfiado da relação do artista com o poder. E em algum tempo minhas habilidades administrativas e de flexibilidade política foram reconhecidas e fui designado coordenador do carnaval da Bahia. Minha luta foi toda em cima de defender o carnaval não como um fato turístico e pitoresco, mas fundamentalmente como um fato cultural. Nasci e briguei muito na Bahia naquele momento para dar valor aos blocos afros que estavam nascendo, como o afro de Itapuã, Male Debale, esse nome ajudei a dar e significava a revolução islâmica do século XIX em Salvador. Ajudei o Olodum, ajudei o Ilê Ayê. Sabia que estava ajudando a representação da maior cidade negra fora da Africa que é Salvador. Eu digo que tenho experiência administrativa porque o carnaval demandava 7 mil pessoas trabalhando diretamente sob meu comando e eu chegava mais cedo do que todo mundo, enfrentando os pelegos do carnaval que me chamavam de estrangeiro, não baiano. Mas fui provando não só que era de Jequié mas que tinha muito conhecimento da cultura baiana, das populações mais pobres, da população negro-mestiça, intimidade nas festas e nas agruras dos pescadores, das feiras, com o candomblé.

HBH: E como entra o livro nessa luta pela diversidade cultural?

WALY: Pelo respeito a todos os falares, não podemos ter um falar único regido por leis gramaticais rígidas. Por exemplo, na Bahia, muitas vezes eu parava e ficava ouvindo um camelô e a mulher falarem, o modo como eles falavam, na ladeira de São Bento, eu ficava horas absorvendo aquela verve, aquele modo de vender. Aquele camelô tinha um lado brasileiro, sem nada de folclorismo, que a gente tem que conservar porque senão fica um crescimento uniforme sem diferenciação. Eu detesto é salazarismo, galinha verde de Plínio Salgado, fascismo, generalíssimo Franco. É evidente que você pode ver percepções inusitadas em pessoas carentes da sabença oficial. Não perceber isso é agir como no leito de Procusto, onde ou você corta a cabeça ou corta o pé, porque ele é curto, não cabe o corpo todo. Temos que fazer o corpo inteiro da cultura esplender.

HBH: Vem daí a invenção de seu programa Fome de Livro?

WALY: É claro. Estamos vivendo um momento muito fecundo com essa capacidade do Lula de liderança, de aglutinar as vontades de um povo na sua diversidade. Aí, junto com o Fome Zero, um programa justíssimo do Lula, fui percebendo que no Brasil ao lado da música popular, do pagode, do futebol que são responsáveis pela ascensão social de  setores sem saída, o livro também pode ser e tem sido essa alavanca de  modificação da posição subalterna das pessoas na sociedade. A fome de livro é um projeto complementar, que considera o livro e a leitura uma ferramenta social, e isso é o meu objetivo básico na Secretaria.

HBH: Você já teve uma experiência forte e recente com esse trabalho em comunidades no Rio, não teve?

WALY: Tive. Sou diretor de Comunicação da ONG Vigário Geral, Afroreggae Cultural há muitos anos. O Junior e o Zé Renato, há quase dez anos, me viram no Jô Soares uma vez e me procuraram. Vi aquilo como uma coisa muito forte, me integrei logo, sem nenhuma hesitação ou dúvida. Comecei a colaborar com o “Jornal Afroreggae” e abri para eles minhas cadernetas de endereço, todos os nomes, mesmos as estrelas pops e vedetes, o que eu não faria com uma promoter…. No lançamento de meu livro “Algaravias”, no Shopping da Gávea, combinei com as bandas e com a ala de capoeira deles para invadirem aquele shopping da Zona Sul para provocar uma reversão simbólica. Transformei meus amigos, gente de show e de novela como Glória Pires, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Antonio Cícero, Fernanda Torres, Renata Sorrah, Zé Wilker, que aqueles meninos e suas famílias costumavam admirar de longe, em espectadores assistindo-os jogarem capoeira, tocarem etc. Até hoje o síndico do shopping proíbe qualquer lançamento de livro de Waly Salomão ali. Gosto desses cruzamentos, dessas misturas, intercâmbios. Quem gosta de água parada é mosquito da dengue.

HBH: Como nosso defensor oficial da leitura, além de gostar de analfabetos você não tem medo da mídia?

WALY: De jeito nenhum. Foi o programa do Jô que me aproximou do Afroreggae. Por isso é que poeta não querer ir para arena pública está errado. Poeta criticar a coisa midiática é uma coisa da Europa civilizada pós-Hitler, mas que aqui não tem razão de ser. O poeta, o escritor tem que ter uma arena pública, tem que ter um modo de falar não só para o Departamento de Letras, não pode fazer uma poesia prêt-à-porter que agrade ao ouvido do professor. Ele tem obrigação de tentar alargar o seu escopo.

HBH: Como essas experiências junto com sua militância passada se unem com essa paixão pela revolução do livro e da leitura hoje na sua Secretaria?

WALY: Porque eu vi, por exemplo, em lugares como nos grupos culturais do Afroreggae de Vigário Geral, garotos anêmicos ficando mais alimentados, mais estimulados, aprendendo coisas, ascendendo socialmente. É por isso que aprendi a ser otimista no meio de um país encalacrado como o Brasil. É por isso que não tive medo, preferi a esperança.

HBH: Você nem hesitou quando o Gil te chamou?

WALY: Ah, nem hesitei. Acho que eu sempre já quero essas coisas previamente, não vacilo. Fui chamado na realidade por João Santana, ligado ao Palocci, que tinha visto meu desempenho administrativo em Salvador. Essas coisas ou você não topa ou tem que dar total dedicação. E depois, essa é sempre uma experiência enriquecedora, vou ter contatos, discussões, divergências, convergências, e a minha poesia sai ganhando.

HBH: Como foi seu primeiro dia de trabalho? Você chegou com todo esse gás?

WALY: Nem cheguei com tanto gás assim… Fui chegando com bastante cautela, precaução, visitando cada setor, tentando apagar até um lado público meu espalhafatoso, inclusive no próprio tratamento com meu parceiro e amigo eu obedeço fielmente à liturgia do poder, só o chamo de sua excelência ou de ministro, ou de companheiro como é a linguagem de agora. Ando de paletó, gravata, tudo. Como eu sou barroco, sei que a vida é um teatro. Não adianta ir com a roupa errada, não fazer os usos de tratamento. Chego sempre com muita cautela, ouvindo tudo e todos… Entrei querendo entender em minúcia aquele espaço, querendo distinguir quem é o servidor qualificado, querendo formar equipe. Entrei procurando uma conjunção interministerial e com os outros poderes, senão sei que não chego muito longe não.

HBH: E tem muita briga por lá?

WALY: Eu acho muita graça em ver tanta briga pelo Ministério da Cultura, um ministério paupérrimo. Por que será que mesmo assim pessoas brigam por cargos, tiram os tapetes, mandam flechas venenosas para todo lado? Para a chefia da Biblioteca Nacional foi uma guerra de foice como eu nunca tinha visto. De repente, um mequinho amigo meu me soprou o nome do Pedro Corrêa do Lago e essa indicação caiu pra mim como uma perfeição. A gente precisa ouvir muito. É assim que pretendo agir, de uma forma pausada e com o travesseiro me servindo de sibila. Se eu errar, sei que é apenas como parte do percurso para acertar. No caso da Biblioteca Nacional quero garantir que aquele acervo, além de ser preservado e exposto, tenha a mesma acessibilidade de padrão internacional que você encontra, por exemplo, na Biblioteca do Congresso em Washington. Pensar a Biblioteca Nacional não como espaço imperial mas como um espaço que possa servir à população, um espaço de utilidade pública.

HBH: A idéia da leitura é fundamental. Mas fazer livro no Brasil é muito caro. É uma aventura economicamente quase inviável. A Secretaria vai ter algum projeto nesse sentido?

WALY: Eu também já fui um pequeno editor, junto com minha mulher Marta. Tivemos a editora Pedra Que Ronca. Lançamos o primeiro livro do Caetano, “Alegria alegria”, e outro livro chamado “Baticum”, de Sonia Lins, a irmã da Ligia Clark. Aí tivemos que fechar… Hoje estou vendo com muito gosto a multiplicação de boas pequenas e médias editoras e a explosão desse panorama. Vai chegar o momento em que esse quadro de dificuldades possivelmente vai ser superado. E vou trabalhar para isso.

HBH: O que seria o grande gol de sua gestão na Secretaria?

WALY: Penso agir com muita dedicação, sonho e catimba, que é uma palavra que vem da África. Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro mas sem estar oprimido pela leitura. Sonho com o Brasil, nesta gestão Lula, assumindo sua face original e diversificada perante o mundo. O livro pode ajudar nisso. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria.

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